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Arte: Cachaça é “pra tomá”, ou pra apreciá?

Por Cachaciê   •  11 agosto de 2019   •  Compartilhar

 

Por @gastrofelicidade em medium.com

 

Tomar: [verbo transitivo direto] ingerir (alimentos líquidos ou sólidos, medicamentos). Apreciar: verbo [transitivo direto], …4- deleitar-se com; admirar.

 

Há quem considere a arte algo da esfera do inalcançável, do incompreensível, coisa composta em alemão, pintada em francês, esculpida em italiano, recitada em inglês.

 

Qualquer coisa que gere um cômodo sentimento de incompreensão é logo rotulado como “arte”. Imaginam ser coisa fina, complexa. Coisa feita para ser compreendida por mentes sofisticadas forjadas por longa exposição aos conhecimentos mundo-a-fora. Há um certo, e até dominante, entendimento que a obra-de-arte só é possível pelo domínio da técnica apurada, feita por semi-deuses, donos de um talento inalcançável e somente decifrável por um seleto grupo de notáveis, que, igualmente, têm pleno domínio da técnica que os deixam aptos a entender e portanto desfrutar de toda beleza contida no objeto de apreciação.

 

Por exemplo, há quem, por aqui, não perceba valor-de-arte na música, principalmente, brasileira. Afinal, uma coisa tão cotidiana e banal, tão à mão e compreensível, como poderia ser arte? Essa música que toca nas rádios, nas plataformas digitais, na Tv é só companheira da solidão, remédio para a dor incurável dos amores perdidos. Aliás, minto, música também é acompanhamento indispensável para celebrar ou marcar momentos alegres com amigos ou amores. É trilha sonora da vida. Música-arte até existe, mas é aquela feita na Europa do século XVII, na Alemanha. Essa? Do nosso todo dia? Não. Muito à mão.

 

Por se realizar muitas vezes numa noção elitista, distante no tempo, no bolso ou no espaço, a arte é, acredite, desdenhada. A noção de que é imperioso se (pré)ocupar com aspectos técnicos e materiais antes de entender a arte, nos guia por uma sensação angustiante de que para ascender àquele mundo colorido e emocionante precisamos nos preparar à exaustão para, só então, sermos “tocados” por uma inspiração mística e recebermos a outorga de acesso à confraria dos notáveis. Aí vem a autocensura – “arte, não é para mim”. Nesse embalo, tem gente que até frequenta espaços, ouve, lê, olha “os clássicos”, mas nunca se conecta emocionalmente à arte. É gente que se acomoda nas aparências, que bebe na fonte das artes por beber, nunca por prazer e desconsidera, por completo, o elemento mais importante da fruição das artes: o Eu.

 

 

Confesso que esse ideal de arte comandou meu imaginário por muitos e muitos anos e ainda me assombra. Mas, comecei a conceber arte com outros valores. Num momento em que o mundo está completamente apaixonado e à mercê da tecnologia, em certa medida, é muito mais fácil o fazer. Então, a arte, aquilo que encanta, não está mais apenas na, antes desafiadora, perfeição da técnica. Ela está no campo das intenções. É um acordo. De um lado está o artista e sua capacidade de impregnar de intenção seu objeto, na outra ponta o apreciador, livre para experimentar. Se, por um lado, conhecer técnicas e o mundo em profundidade é fundamental para a potencializar a construção das intenções, por outro, ignorá-los, não anula a experiência. Agora, aquele que conhece as técnicas e ousa extrapolá-las, seja no fazer ou no fruir, esse tem uma página em branco para colori-la. Ou seja, a beleza da arte é o espírito, a tradição, a intensão, a cultura que nos permeia e que nos toca intimamente. Hoje, ao compreender arte como este ato sempre particular e íntimo, me sinto capaz de experimentá-la no cotidiano de todas as coisas.

 

Desculpem-me o enorme “nariz-de-cera” (jargão do jornalismo que significa divagar sobre um assunto, antes de entrar no que de fato importa), mas como estas são Divagações Etílicas, me permito certos pecados em nome do estilo.

 

 

 

Até que enfim, chegamos na cachaça.

 

Quando digo que hoje sou capaz de experimentar arte nas coisas do cotidiano, o que faço é ressignificar os valores da apreciação, dando menos importância às circunstâncias e mais atenção aos afetos que as coisas do dia a dia provocam. Dessa forma, a arte, para mim, vem perdendo seu lugar no olimpo e, felizmente, caindo mais à miúde nas minhas mãos mundanas e ignorantes. Assim é com a cachaça. Quando me lanço ao divertido e confortante ritual da apreciação das pingas, em princípio, não me importo muito com a cachaça em si, sou muito mais atento ao que ela me provoca. Até porque, quando eu falo de cachaça, não me refiro a uma específica, já que tenho muitas prediletas, depende da hora, da circunstância, do humor e das companhias, me refiro a uma cachaça-espírito que carrega a bebida com um enorme potencial de personalidade e tradição. Se é cachaça, pronto, olho com um respeito e carinho não importando, à primeira vista, se bela ou irresponsavelmente produzida. É cachaça, carrega em seu DNA cultural meu registro de povo. Isso, por si só, é uma responsabilidade enorme.

 

 

Uma vez admitindo sua importância cultural, entro numa segunda etapa. A pinga precisa ser feita com rigor técnico e sanitário pois, o rito da bebida exige que ela seja ingerida e não dá para nos maltratar em nome da cultura, do prazer ou da arte. Além disso, ao contrário que podemos pensar, a tradição só consegue avançar se for se apropriando das melhores práticas e dos avanços tecnológicos. Não há aí nenhuma contradição. A tradição é viva. E como todo ser vivo muda, evolui, se adequa. A tradição só se perpetua se ela for se atualizando através dos tempos, senão ela se tornará, anacrônica, incompreensível e desvinculada do seu caráter civilizatório até morrer por inanição.

 

É exatamente nesse ponto que vamos começar a separar o que é arte do que é apenas um destilado de caldo-de-cana. Claro que é um ponto polêmico, mas para além da discussão tecnicista, me atenho ao caráter humano da cachaça. O valor da experiência. Nesse caso, dedico honras de obra-de-arte ao líquido que é produzido a partir das tecnologias modernas e das melhores práticas. Não apenas por uma questão sanitária e legal, mas principalmente porque ao controlar todo o processo de fabricação, o produtor ganha a liberdade de fazer escolhas e dar características muito particulares à sua criação.

 

Entra aí o mais artístico dos componentes da cachaça. É quando o produtor, coloca todo o seu intelecto, seu conhecimento de mundo, sua sensibilidade às coisas do homem e experiências de vida para entender o valor cultural daquele líquido simples.

 

Esse enorme caldeirão de ideias é que leva o mestre do alambique a conjugar as particularidades sazonais do cultivo, as técnicas de produção e de envelhecimento, junto com sua criatividade e potência de realizar para imprimir em cada safra ou lote valores únicos que vão compor com os elementos estéticos e tantos outros recursos, um fabuloso gatilho para as nossas experiências de fruição daquela obra singular.
Claro que existem, nos quase 4 mil rótulos da bebida, Brasil adentro, branquinhas menos, digamos, artísticas e outras mais. Isso faz dela uma das mais democrática do mercado porque nem todo mundo quer, está disposto, ou acredita que haja um universo de sensações dentro de cada garrafa. E tudo bem. Que cada um seja feliz bebendo à sua maneira.

 

 

Mas, nas vezes que a opção for pela experiência afetiva através de uma bela cachaça, primeiro, sinta-se convidado à apreciação. Depois de aconchegado, mergulhe. Esteja disposto a ser seduzido. Se entregue. Não poupe suspiros e frios na barriga. Deixe-se envolver e sentir-se presente naquela relação. Não tente entender. Só acredite. Porque o universo do afeto não é exato nem linear. É um não-lugar. Por isso não se limite à sua existência física. Extrapole o limite dos sentidos e aposte nas sensações. Tente ser completo, não inteiro, acreditando que cada sensação percebida não é certa nem errada, simplesmente é. Fruir é soltar as amarras da razão e ser conduzido por seus instintos primitivos por uma viagem íntima, mas nunca solitária, pois, é um momento para levar o afeto para o centro do seu universo. Acolher ali, as melhores memórias, as gargalhadas mais espontâneas e os abraços mais acolhedores.

 

A fruição de uma obra-de-arte é isso, uma viagem no nosso universo afetivo e a nau em que escolhemos navegar é o nosso objeto de apreciação. Por isso somos notadamente impelidos a escolher os mais bonitos, mais bem-acabados, que vão nos permitir o melhor conjunto de experiências. Quando, no nosso caso, o objeto é a cachaça, vale aquela que melhor aguça nosso paladar, desperta a visão e inebria o olfato. Portanto, à sua saúde, sempre …

 

Cachaça!

 

Fonte (texto e fotos): @gastrofelicidade / medium.com