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Cachaça + Gin = juntos são bom negócio?

Por Cachaciê   •  1 setembro de 2018   •  Compartilhar

Cachaça e Gin, será que a produção conjunta destes dois destilados representa bom negócio para os produtores de cachaça?

Resolvemos investigar esta questão. E o primeiro ponto de vista que
trazemos para você é o de André Sá Fortes Pinheiro, produtor do Gin YVY.

Natural de Belo Horizonte, o jovem empresário, de 32 anos atribui à sua formação em publicidade e gastronomia a boa visão para o desenvolvimento de produtos, para a indústria alimentícia, com foco na demanda do cliente.

André conta que depois de vários anos à frente de seus próprios bares e restaurantes percebeu espaço no mercado de bebidas, e então iniciou esse novo negócio de Gin, mas logo esclarece que a YVY Destilaria não e apenas uma destilaria de Gin, e sim uma destilaria que busca em seus produtos mostrar um pouco da história e cultura do povo brasileiro. “A influência estrangeira, influência nativa e a mistura disso tudo faz da gente o que somos”, declara André Sá.

Na entrevista abaixo, exclusiva para o Portal Cachaciê, André Sá compartilhou reflexões que, temos certeza, ajudarão muito a entender a sinergia entre Cachaça e Gin, enquanto negócio. Sirva-se!

(Cachaciê) Fale-nos sobre GIN e o momento atual da bebida no Brasil e no mundo?

(André Sá) O GIN, assim como outros destilados artesanais, tem crescido muito em produção e consumo ao redor do mundo. O acesso a conteúdos e informações de gastronomia deixou as pessoas mais curiosas e abertas a novos sabores e experimentações. Esse efeito se repete nos destilados, com início há aproximadamente seis anos, da mesma forma que vem acontecendo a mais tempo com a cerveja. Os clientes estão migrando das grandes marcas para pequenas marcas artesanais. Fora do Brasil já existem milhares de marcas de GIN artesanal, enquanto aqui temos menos de duas dezenas.

(Cachaciê) Como surgiu seu interesse por este destilado?

(André Sá) Como apreciador do destilado e dono de bar, percebi a necessidade de um custo x benefício melhor. Para que isso fosse possível, a produção de um GIN de alta qualidade teria que acontecer no Brasil.

(Cachaciê) Conte-nos sobre o GIN que você produz?

(André Sá) Meu GIN é produzido a partir de álcool extra neutro de cana, destilado em infusão de ervas e especiarias. A receita foi desenvolvida de forma minuciosa por um dos meus sócios ingleses. Darren Rook, sócio fundador da London Distillery Company, já produz GIN há seis anos e vem de um passado na indústria de whiskey.

(Cachaciê) A qual mercado se destina?

(André Sá) O mercado para GIN no Brasil ainda é muito pequeno e se restringe ao público jovem, das classes A e B.

(Cachaciê) Onde o YVY é produzido?

(André Sá) Em Nova Lima/MG, cidade muito próxima a Belo Horizonte.

(Cachaciê) Quais as características sensoriais do GIN e diferencial para a coquetelaria?

(André Sá) Diferente da cachaça, rum e tequila, o GIN não vem de um ingrediente e pode ter receitas com uma quantidade ilimitada de ingredientes, sendo o zimbro o único obrigatório. Assim, as
possibilidades de sabor e características sensoriais são infinitas, tornando o GIN um excelente ingrediente para coquetelaria.

(Cachaciê) Como é o consumo de GIN no Brasil?

(André Sá) De forma geral o GIN é consumido com tônica. Existem muitas possibilidades de mistura e usos na coquetelaria, mas o público ainda está se familiarizando com elas.

(Cachaciê) Qual o perfil do consumidor de GIN?

(André Sá) O consumidor de GIN costuma ser viajado, antenado, ligado às tendências. Do ponto de vista de paladar, o consumidor tem que ser aberto a sabores mais perfumados.

(Cachaciê) Como você percebe o crescimento e desenvolvimento do negócio de GIN?

(André Sá) O negócio de GIN tem um bom potencial de crescimento no Brasil, mas assim como qualquer mercado, demanda muito trabalho para o desenvolvimento do produto, inclusive o que se refere à identidade visual e marketing, por se tratar de um produto direcionado ao mercado premium.

(Cachaciê) Você tem conhecimento de alguma pesquisa que aponta a tendência de crescimento do consumo de GIN no Brasil?

(André Sá) Não tenho conhecimento de pesquisa desta natureza, mas sei que no mercado premium de SP, o GIN já superou a venda das vodkas.

(Cachaciê) No Brasil o maior consumo ainda é de GIN importado?

(André Sá) Diria que o consumo de GIN importado no Brasil e de mais de 90%.

(Cachaciê) Quantos rótulos de GIN brasileiros existem hoje?

(André Sá) Aproximadamente 15 rótulos.

(Cachaciê) Qual a dificuldade de colocar um GIN no mercado nacional?

(André Sá) A briga com as grandes marcas e a dificuldade no desenvolvimento de uma boa receita.

(Cachaciê) Conte-nos um pouco sobre o processo produtivo do GIN?

(André Sá) Para se obter um gin de alta qualidade, primeiramente deve-se ter um alambique montado especificamente para essa demanda. O alambique de cachaça, com fogo direto ou serpentina de vapor interna, não são indicados para a produção do GIN, uma vez que queimam as ervas e especiarias, durante a destilação. Em segundo lugar, é preciso obter fornecedores que garantam álcool com altíssima neutralidade e fornecedores de ervas e especiarias, que mantenham o padrão necessário para não existir alteração de sabor entre as destilações.

(Cachaciê) Há período de safra para a produção de GIN, ou este pode ser produzido o ano inteiro?

(André Sá) O GIN pode ser produzido o ano inteiro, contanto que nenhum dos ingredientes da sua receita tenha safra.

(Cachaciê) Quais as características do equipamento para produção de GIN?

(André Sá) São alambiques de cobre, preferencialmente com jaqueta de vapor. O design pode variar e isso traz diferentes resultados para o produto final.

(Cachaciê) Qual empresa foi escolhida por vocês para o fornecimento de equipamentos?

(André Sá) Nossos equipamentos são dos Alambiques Santa Efigênia, sediada na cidade de Itaverava- MG.

(Cachaciê) Como é a tributação do GIN?

(André Sá) Hoje a tributação do GIN e bem mais alta que a da cachaça. De IPI paga-se 30%.

(Cachaciê) Quais as principais diferenças do GIN se comparado à Cachaça”?

(André Sá) O GIN não demanda fermentação e nem envelhecimento, mas tem uma receita muito mais complexa e delicada. Diferente da cachaça, que já é conhecida no Brasil, o GIN ainda tem que ser apresentado ao público na maior parte do país.

(Cachaciê) Alguns produtores de cachaça estão se interessando em produzir GIN. Qual a sua opinião a este respeito?

(André Sá) Se o produtor já conseguiu estabelecer bem a sua marca e o processo de produção de cachaça em sua destilaria está ajustado, pode ser interessante se aventurar por outros destilados. No entanto, se as coisas ainda estiverem sendo ajustadas, o produtor não deve achar que o GIN vai ser uma maneira fácil de ganhar dinheiro. O GIN e a cachaça são produtos de produção bem diferentes e destinados, de forma geral, a públicos muito diferentes.

(Cachaciê) A produção de GIN pode ser uma oportunidade economicamente interessante para a ociosidade da fábrica de cachaça, na entre safra?

(André Sá) Diria que não. A produção de GIN não deve ser vista como um tapa buraco, mas sim como um outro negócio. Um negócio que vai tomar tempo, dinheiro e demandar muito trabalho, para dar certo.

(Cachaciê) O alambique de cachaça é adequada para a produção do GIN?

(André Sá) Pode ser usado, apesar do alambique de cachaça não ser o ideal para a produção de GIN. Haverá sempre a necessidade de algumas adequações. O melhor mesmo é um alambique exclusivo para a produção de GIN, inclusive porque após uma destilação de GIN, o alambique costuma ficar impregnado com os aromas das ervas. Se a opção for esta será necessário um cuidado maior com a limpeza do alambique entre as destilações de produtos diferentes.

(Cachaciê) Quais conhecimentos os profissionais, que produzem GIN devem ter?

(André Sá) É desejável que entendam bastante sobre ervas, especiarias e seus óleos essenciais.

(Cachaciê) Você acredita ser uma tendência que os produtores de cachaça produzam GIN para terceiros?

(André Sá) Não. O que se vê hoje é um movimento no sentido do surgimento de diversas novas micro destilarias urbanas, que não dependam de estar próximas da produção rural. O mesmo fenômeno que aconteceu com as cervejarias artesanais.

(Cachaciê) Em sua opinião quais as vantagens e desvantagens de um produtor de cachaça, também produzir GIN?

(André Sá) Há vantagens. Com algum investimento, seria possível produzir o próprio álcool neutro, que não seria mais barato que o álcool de usinas, mas teria mais apelo de marketing no produto final. Além disso, poderia aproveitar boa parte da estrutura que já possui e pessoal. A mão de obra seria a da equipe já contratada para a produção da cachaça.

(Cachaciê) Você acredita que Cachaça e GIN são produtos que brigam pela preferência do mesmo consumidor?

(André Sá) De forma geral não. Hoje são poucas as cachaças que conseguem ter volume de venda no mercado premium.

(Cachaciê) O esforço de venda e posicionamento dos dois produtos pode ser feito em conjunto?

(André Sá) Dificilmente.

(Cachaciê) Você acredita que, diferente da cachaça, o fato do GIN não suscitar preconceitos, torna mais fácil o lançamento de uma marca e seu posicionamento no mercado?

(André Sá) Não. Apesar de não existir ranço, existe a necessidade de enfrentar a concorrência com os produtos importados, que tem credibilidade.

Sobre André Sá

ANDRÉ SÁ FORTES, CEO & IDEALIZADOR

Formado em Publicidade e Gastronomia, o empresário mineiro entrou de vez na coquetelaria em 2013, quando abriu o bar MeetMe at the Yard em Belo Horizonte. Focado em drinques e premiado por 4 anos consecutivos, o bar foi o laboratório de André para reconhecer as oportunidades de negócios no mercado de destilados. Hoje está focado inteiramente na Yvy Destilaria, na distribuição e desenvolvimento do projeto que não pretende ficar apenas na produção de gins.

Sobre o GIN YVY

Yvy é herança indígena. No tupi-guarani significa território, o chão que pisamos. Yvy é Brasil, esse país de proporções continentais, um mundo de infinitos sabores e aromas. De histórias, origens e destinos. Do tempero dos índios, negros, europeus, asiáticos, de todo mundo que faz parte dessa mistura que nós somos.

Destilar o Brasil: desafiar o paladar, reinterpretar ingredientes e a nossa terra. Redescobrir o Brasil: transformar o chão que pisamos em uma bebida que é nossa e do mundo.

A devoção em forma de drink. Nossa história tem respeito à natureza, calor humano e bebidas que traduzem o Brasil – a essência da nossa terra, a vida dos brasileiros, ontem, hoje e todos os dias. As notas fundamentais que fazem do Brasil esse mundo de surpresas, sabores e deliciosas descobertas.

Gin YVY Mar – o primeiro lançamento da Trilogia Um oceano de descobertas. Uma bebida elaborada com os ingredientes mais interessantes que os imigrantes trouxeram para o Brasil. Aromas e
sabores que chegaram pelo mar para fazer para fazer história aqui.

Valor médio venda consumidor final: R$90,00

Saiba mais: www.yvydestilaria.com.br

Crédito Fotos:
– Fotografia 1: Juliano Arantes
– Fotografia 2: Rafael Motta