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A História da Caipirinha – Versão Paratiense

Por Cachaciê   •  30 outubro de 2018   •  Compartilhar

 

(Este artigo do Felipe Jannuzzi/Mapa da Cachaça é de 2014, mas nunca esteve tão atual. Por isso fizemos um resgate e trouxemos para você. Ficou curioso? Então confere aí).

 

 Qual a origem da Caipirinha? Já ouvimos algumas versões. Um documento do século XIX sugere que talvez ela seja paratiense. Será?

 

Na nossa última viagem visitando os alambiques do sul fluminense constatamos em documentos oficiais, que o destilado de cana produzido em Paraty já era bastante prestigiado no período colonial.

 

“…a passagem que nela se faz para as Minas e a quantidade de aguardente de cana que ali se fabrica, lhe dão a opulência conhecida.” (D. Antônio Rollim de Moura, Conde de Azambuja, Governador de Goiás e Mato Grosso, 1750).

 

Nas quatro noites que passamos na cidade, além das pesquisas históricas e técnicas, buscando identificar características próprias de produção da cachaça paratiense, fomos atrás também de entender como a aguardente era usada na gastronomia local.

 

Nessas pesquisas, descobrimos muita coisa interessante sobre os drinques de Paraty.

 

 

A Caipirinha é Paratiense?

 

A caipirinha é o drinque oficial do Brasil. Assim como sua matéria-prima principal, a cachaça, a bebida está protegida por lei como um patrimônio nacional. No entanto, pouco se sabe sobre a sua origem.

 

A princípio, podemos supor pelo nome caipirinha que a bebida teria surgido no interior de Minas Gerais ou São Paulo, terra dos caipiras. Mas foi em Paraty, no Rio de Janeiro, que encontramos o registro mais antigo de uma possível inspiração para o coquetel nacional.

 

Em papo com o historiador paratiense Diuner Mello, descobrimos um documento de 1856, que relata as medidas tomadas por conta de uma epidemia de cólera na região. Entre os registros, está uma carta do engenheiro civil João Pinto Gomes Lamego, que apresenta uma receita que daria origem ao que hoje chamamos de Caipirinha.

“… por isso, tenho provido que a necessidade obrigou a dar essa ração de aguardente temperada com água, açúcar e limão, a fim de proibir que bebessem água simples.” (Registro de Ofícios da Câmera Municipal, pag. 139 , 1856).

 

Diuner Mello, pesquisador da história de Paraty

De remédio popular, a caipirinha é hoje um dos coquetéis mais consumidos do mundo, tendo sido incluída pela Associação Internacional de Bartender, entre os clássicos da coquetelaria mundial, sendo bastante apreciada por estrangeiros que fazem questão de beber sua versão oficial com cachaça.

 

Nas nossas viagens, já ouvimos algumas histórias sobre as possíveis origens desse drinque nacional. Alguns historiadores falam que possivelmente seria originária de Santos, região das primeiras alambicadas de aguardente, outros dão os créditos à Carlota Joaquina – adepta da boa caninha e suas misturas com as frutas dos trópicos.

 

Com as incertezas surgem até as versões inusitadas: Jô Soares no seu “O Xangô de Baker Street”, apresenta o Dr. Watson, amigo de Sherlock Holmes, como o pai da caipirinha. Pelo jeito, a origem do drinque tipicamente brasileira não é tão elementar assim…

 

Para chegarmos numa conclusão sobre a sua origem, ainda precisamos pesquisar muito, no entanto, a versão paratiense é até agora a mais antiga que temos nos arquivos do Mapa da Cachaça.

 

Jorge Amado e Gabriela, Cravo e Canela

 

Em 1988, foi gravado em Paraty uma versão cinematográfica do livro Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. Apesar da história se passar em Ilheús, na Bahia, o centro histórico de Paraty foi cenário ideal para a trama de Gabriela, uma linda sertaneja interpretada na tela por Sonia Braga.

 

Durante os meses de gravação, a relação entre a equipe de filmagem e os paratienses foi tão intensa que os produtores de cachaça da cidade decidiram prestar uma homenagem à obra: a criação de uma aguardente com cravo e canela batizada de Gabriela.

 

Hoje, quase todos os produtores de cachaça de Paraty possuem sua versão da Gabriela, mas de acordo com os locais, a primeira garrafa teria sido uma criação da família Mello, produtores da famosa cachaça Coqueiro.

 

 

Drinque Jorge Amado, com Gabriela, maracujá e limão

 

As homenagens não pararam por aí. A bebida inspirou inclusive a criação de um drinque delicioso chamado “Jorge Amado”, que leva maracujá, limão taiti e claro, Gabriela.

 

Infelizmente, nunca encontramos o drinque em bares ou restaurantes fora de Paraty, uma pena porque além de ser delicioso é também uma forma de lembrarmos do grande escritor brasileiro.

 

Para finalizar, deixo uma provocação para os meus amigos e amigas bartenders e mixologistas: por que num país de dimensões continentais, com uma enorme variedade de frutas tropicais, com um dos povos mais criativos do mundo e com uma aguardente de tamanha qualidade como a cachaça temos apenas a Caipirinha como nosso drinque oficial?

 

Vamos inventar novas receitas com cachaça?

 

Fonte: Site mapadacachaca.com.br, artigo de 17 de janeiro de 2014, escrito por Felipe Jannuzzi e fotos de Leo Bosnic.

 

(Cachaciê)

OBERVAÇÃO: Agora que você já leu até o final este artigo que valoriza e faz um justo resgate da Caipirinha, que neste 2018 completa 100 anos, queremos contar que o movimento para termos mais um drink brasileiro na Carta Internacional da IBA está forte. Agora o foco é o Rabo de Galo, um drink elegante e delicioso. Você já provou? Não? Então na próxima vez que sair pede para o bartender fazer um para você!