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A história da colher bailarina

Por Cachaciê   •  2 outubro de 2018   •  Compartilhar

Por Gilberto Amendola

 

O primeiro dono daquela colher bailarina teria sido um especialista em herbologia mágica morto pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, no reino de Castela (Espanha), no início do século XV.

 

A colher teria sido encontrada entre os espólios do mago e entregue aos cuidados de um departamento muito importante dentro do aparelho burocrático do reinado de Isabel I de Castela, o Achados & Perdidos e Queimados.

 

 

Até onde se sabe, um assistente de cozinha, responsável pelas refeições da monarquia, apropriou-se da colher bailarina e com ela deu início aos primeiros experimentos etílicos – documentos da época dão conta de que o tal assistente de cozinha, cujo o nome não se sabe, foi o primeiro a usar aquele objeto para misturar o vinho com outros líquidos. Reconhecido hoje como o anônimo criador da mixologia orgânica-molecular, ele teria misturado seu próprio cuspe ao vinho tinto e doce da época – atingindo uma complexidade semelhante ao que hoje conhecemos como vinho Carménère.

 

Como Isabel caiu doente depois de experimentar uma das criações do “barman” real, o mesmo foi levado à forca e a colher bailarina condenada ao esquecimento.

 

Não fosse a autorização dada à equipe de apoio de Cristóvão Colombo para recolher “todo utensílio que fosse útil em sua segunda missão marítima”, a colher estragaria junto com tudo o que permaneceu naquele decadente castelo.

 

Então, com Cristóvão Colombo, a colher bailarina foi parar na 13ª caravela da esquadra que chegaria naquilo que agora conhecemos como Santo Domingo, na República Dominicana. Durante a viagem, ninguém sabia o que fazer com aquela colher – Colombo teria coçado as próprias costas com a ajuda desse instrumento.

 

 

Ao desembarcar naquelas terras, encontraram cinco tribos indígenas – que trataram os exploradores como se fossem divindades. O início daquele relacionamento foi promissor e cheio de gentilezas. A colher bailarina, por exemplo, foi dada de presente a um dos chefes indígenas em troca de 8 virgens.

 

Naquele período, a colher bailarina serviria, novamente, para misturar poções – principalmente medicinais e ou alucinógenas. Certa vez, durante um ritual de primavera, a colher misturou tantas ervas que transformou dez espanhóis e cinco nativos em formigas ‘da bunda vermelha’.

 

Aqui, os registros históricos da nossa aventureira colher bailarina desaparecem. Eles só irão ressurgir em meados da década de 40, na mansão do ditador Rafael Leónidas Trujillo. O sanguinário ditador dominicano seria um apreciador de coquetéis batidos. Portando, nunca imaginou qual seria a utilidade daquele instrumento. Uma lenda dominicana, bastante difundida entre historiadores de pouco reconhecimento acadêmico, afirma que Trujillo tinha convicção que aquele instrumento era de uso erótico e invasivo.

 

Por meses, Trujillo teria sugerido que a tal colher seria introduzida em algum orifício de sua amante escrava sexual brasileira. Assustada, Rita de Cássia fugiria da mansão do ditador depois de uma orgia – levando com ela a tal colher bailarina.

 

 

Portanto, a colher bailarina em questão chegaria ao País no início dos anos 60. No Rio de Janeiro, Cássia casou-se com um dono de bar eslovaco. O estabelecimento, que vivia em franco processo de falência, foi salvo quando um funcionário, Olavo Munhoz, encontrou a bailarina perdida entre outras colheres da cozinha e começou a desenvolver drinques mexidos – de inspiração americana e europeia.

 

O eslovaco ficou tão grato que deu sociedade ao funcionário brasileiro. Meses depois, Olavo fugiria com Rita, a mulher do eslovaco, para São Paulo. Na mala de Olavo, claro, a poderosa colher bailarina.

 

 

O casal teve uma vida feliz na Cidade. Não demorou e nasceu o Fernando – que herdou do pai o amor pela mixologia. No final dos anos 90, em seu leito de morte, Olavo entregaria a colher bailarina aos cuidados do filho. Com ela, Fernando ganhou prêmios como melhor barman de São Paulo, do Brasil e foi bi-campeão do Internacional Bartender Challenge.

 

A colher bailarina é o seu amuleto. Perdê-la seria como perder o seu próprio dom. Espero que isso nunca aconteça.

 

Agora, Fernando está aqui, concentrado, dando voltas com a sua colher bailarina no meu Negroni. Certeza que vai ficar delicioso – como sempre.

 

Fonte: HTTP://MIXOLOGYNEWS.COM.BR/AUTHOR/GILBERTOAMENDOLA- 19/05/2016

 

Sobre o autor:

Gilberto Amendola é jornalista, sócio fundador do Capiléque’s Bar e frequentador de balcões por aí. Escritor do recomendadíssimo blog “Não é você, sou eu” e barman amador – repito amador.

Na coluna “Aquele que foi comprar cigarros…” vai tentar misturar suas paixões no mesmo mixing glass e criar uma ficção pra ser bebida ou lida com a barriga e a alma no balcão”. Não vai conseguir, mas espera beber tentando.

Sobre a colher bailarina (colher de bar):

A colher bailarina é um utensílio indispensável para Bartenders profissionais ou amadores. Seu cabo espiral foi especialmente projetado para facilitar a mistura de drinks e coquetéis, tornando o preparo muito mais prático.

Alguns modelos também são servem de base como colher de açúcar. Hoje existem diversos modelos de colheres, com cumbucas de diversos tamanhos, comprimentos diferenciados, corpo em espiral e também com vários tipos de pontas, que podem ser ponta simples, ponta com disco, ponta com tridente, entre outras.