Blog

O século da cachaça

Por Cachaciê   •  26 junho de 2016   •  Compartilhar

Em 1998, José Lúcio Mendes Ferreira realizava em Belo Horizonte a primeira edição da Expocachaça. Formado em Turismo e no Curso Intensivo e Superior em Marketing, ele viu o potencial da bebida e foi pioneiro ao unir o formato de feira de negócios com festival de entretenimento. O evento chega aos seus 19 anos com mais de 26 edições realizadas. Atualmente, com uma produção anual de 1,4 bilhão de litros no país, a bebida movimenta 7 bilhões de reais em sua cadeia produtiva, se tornando cada vez mais um produto estratégico para o Brasil.

Só a edição 2016 da Expocachaça, que terminou no dia 12 de junho, recebeu cerca de 40 mil visitantes e movimentou aproximadamente R$ 38 milhões. Contribuindo para divulgar nacional e internacionalmente um dos produtos com mais cara de Brasil, ele aposta que a tendência natural é que neste século a cachaça conquiste o mundo.

Atualmente como Presidente da Expocachaça-BH e Brasilbier, feira da cerveja artesanal realizada em conjunto com a Expocachaça, José Lúcio conta da evolução do evento e da percepção do produto ao longo desses anos e as expectativas para o futuro.

Como surgiu a ideia de realizar a Expocachaça?

Quando eu era vice-presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL) em 1996 e 97, entidade com representação em todos estados, surgiu a oportunidade de participarmos de uma missão para França e Escócia. Reunimos produtores de cachaça, representantes do governo, restaurantes e empresas ligadas ao lazer para conhecer nesses países a estrutura e o universo das bebidas, como champanhe, vinhos, uísques e conhaques. O objetivo era entender o tratamento e o esforço de marketing que essas bebidas recebiam em relação ao turismo.

Retornei ao Brasil e percebi que a nossa cachaça tinha muito potencial, mas uma abordagem errada. Ela praticamente era inexistente nos restaurantes e, quando havia, era a cachaça clandestina, debaixo do balcão. Por isso, resolvi montar em 1998 uma feira produtiva da cachaça na Serraria Souza Pinto, onde tentamos trazer todo o universo em torno da cachaça e elevar seu status. Foi um sucesso. Desde então, realizamos todos os anos, e em 2005 fomos convidados pelo Governo do Estado para ancorar no Expominas, no Superagro, megaevento que reunia as cadeias produtivas do agronegócio.

Como era o mercado e a percepção do produto na época?

Quando começamos, por exemplo, se o homem queria beber uma cachaça, a mulher era contra porque esse gesto iria depor contra sua imagem. A reputação do produto era negativa. A grande maioria era comercializada em embalagens precárias, sem nenhum atrativo e o marketing era inexistente. Um produto primário. Quando elaboramos o projeto ele não tinha nenhum status para feira. Mas quando chegamos a realizá-lo de fato, os produtores se movimentaram para adequar as embalagens e surpreenderam o público com as novidades. Definitivamente não era mais aquela folclórica caninha da roça.

Nesses 19 anos do evento, quais foram as principais conquistas e mudanças no formato e perfil da Expocachaça?

Ainda mantemos o formato intacto: de feira e negociações durante o dia, onde aproximamos o comprador do expositor, e durante a noite o momento de festival, com degustação, gastronomia, música e shows, elementos que ajudam na formação de novos clientes.

Qual a média e perfil do público visitante da feira hoje?

Trabalhamos com uma média de 40 mil pessoas, porque mesmo com o crescimento positivo do evento, esse número é balizado pela estrutura que podemos oferecer. Hoje, recebemos tanto expositores e potenciais negociadores como turistas. A Expocachaça é múltipla: temos na feira um componente cultural, turístico, lazer, entretenimento, gastronomia, vários universos que compõe sua estrutura, não é só um evento do agronegócio.

Há a participação de estrangeiros na feira?

Na última edição, nós tivemos compradores do EUA, Bélgica, Itália e outros países, que procuram principalmente equipamentos de produção. Há também representantes que vêm conhecer novos produtos e fazer um primeiro contato com os expositores.

Quantas marcas de cachaça estiveram presentes nas últimas edições?

Atualmente, é possível encontrar uma faixa entre 400 e 600 marcas da bebida. O número é expressivo porque alguns distribuidores têm até cinco ou mais marcas, que variam do tipo da cachaça, branca ou amarela, envelhecia em tonéis de madeira ou não. Neste ano, 22 estados participaram.

A marca da Expocachaça é muito forte. Como conseguiram alcançar esse alto conceito? Apostamos no entretenimento do espaço e no “mixing” de atividades e produtos. Fomos pioneiros nesse formato de feira e festival.

Como balancear o perfil de feira e espaço para negócios, com o festival, os shows e as atrações de entretenimento?

É estabelecer horários. Há o momento de negócios, que vai um público, e o show vai outro. As pessoas aproveitam para beber, comer e ver shows. A diferenciação de horários facilita o funcionamento da feira.

Especialistas em bebidas dizem que este é o momento da cachaça. A bebida vem ganhando mais apreciadores e reconhecimento mundial como produto típico brasileiro. Como essa mudança impacta o mercado interno?

Todas as bebidas no mercado mundial estão “batidas” em questão de marketing, com a demanda e produção em queda. De acordo com pesquisas de mercado, a única com potencial de crescimento é a cachaça. Infelizmente ainda estamos com a produção pulverizada, pequenos produtores espalhados. Então temos que trabalhar nichos de mercado, segmentar para colocar a cachaça envelhecida e de qualidade no mercado, porque ainda não podemos ganhar em volume.

Apesar de pouco da produção ser exportada, cerca de 1%, estamos entrando em mercados fortes da Europa e nos Estados Unidos. Nacionalmente, Minas Gerais é o terceiro mercado distribuidor, atrás de Pernambuco e São Paulo. A diferença é que esses estados ganham em volume por contar com grandes distribuidores, como 51, Ypióca e Pitú, enquanto Minas está no nicho premium, que tem um potencial muito grande. Acredito que é questão de tempo e vamos avançar nesse mercado.

Como a Expocachaça contribuiu para mudar a percepção da bebida?

Sempre buscamos informações sobre a evolução dos destilados no mercado mundial, pesquisas de percepção dos clientes, e é claro, sempre trazer o melhor mix para o evento. Como paralelamente temos este perfil de festival, menos sisudo, acabamos ligando a marca da cachaça com o entretenimento.

Ao longo dos anos, a Expocachaça também se tornou uma vitrine para o segmento, gerando mais de R$ 80 milhões em mídia espontânea, 250 milhões em negociações, e atingindo a marca de 2 milhões de visitantes. Isso, juntamente com o esforço dos colaboradores, deu sem dúvidas um upgrade de status para a cachaça. Mostrou o potencial do produto, que está fazendo sucesso no mercado internacional e conquistando prêmios.

Como a reunião de público, potenciais consumidores da cachaça e marcas em um mesmo local beneficia o negócio?

Da forma mais natural. A degustação nos estandes ocorre junto à conversa direta da marca e um potencial cliente, é o primeiro contato. Ali todos podem conhecer marcas, ver o posicionamento do produtor, a apresentação do produto, sem necessariamente ser um comprador.

Qual o volume de negócios gerados na última edição?

Estimamos em torno de R$ 38 milhões, algo nessa faixa. Além da cachaça, também há estandes que oferecem equipamentos de produção, que tem um valor alto. Há ainda o pós feira, negociantes que realizaram o primeiro contato, trocaram os cartões e concretizam os negócios posteriormente.

Desde 2007, a Expocachaça e o Brasil Bier — voltado para o segmento de cervejas artesanais — são realizados em conjunto. Como tem sido esta experiência para as rodadas de negócios e para o público em geral?

Começou como Espaço Bier Show, com pequenos produtores de cerveja artesanal que precisavam de visibilidade, e com o tempo ganhou marca própria, o Brasil Bier. Felizmente nunca aconteceu qualquer questionamento de nenhuma das partes, até porque são duas cadeias trabalhando em sinergia, a produção e os equipamentos são semelhantes, a diferença está na destilação final. O forte da feira é a cachaça, mas a cerveja também atrai seu público, é bom para o evento.

 

Fonte: Minas Marca