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Os desafios do mercado da cachaça

Por Cachaciê   •  5 junho de 2016   •  Compartilhar

O cenário atual para a cadeia produtiva da cachaça apresenta muitos aspectos positivos e também alguns negativos. Nos últimos 10 anos é notório o crescimento na produção da cachaça. Isso em função, entre outras coisas, do reconhecimento da bebida como patrimônio cultural brasileiro, da caipirinha como drink nacional e do reconhecimento como bebida típica e de produção exclusiva do Brasil pelos Estados Unidos.

Também a criação de confrarias, academias e clubes da cachaça, além do surgimento de profissionais especializados na bebida (cachacier, baristas e bartenders), impulsionaram o consumo da cachaça e ocasionou uma maior aceitação pelos consumidores mais exigentes.

No entanto, o setor da cachaça foi atingido fortemente pela atual situação econômica do Brasil. Não só pela diminuição do consumo, mas em plena crise econômica, o setor que já era tributado em demasia, sofreu mais um aumento, elevando o IPI para 25% do preço do produto.

Com isto, o mercado interno ficou inviável, e por consequência, estimulou alguns poucos produtores a focarem na exportação e muitos a seguirem o caminho da clandestinidade.

Mas não podemos deixar de trabalhar com o objetivo da cachaça se consolidar como o destilado mais consumido do mundo, saindo da posição de 3º para 1º lugar. A realização deste sonho deve ser meta de todos da cadeia produtiva.
Acabo de assumir a diretoria da AMPAQ (Associação Mineira dos Produtores da Cachaça de Qualidade), para o triênio 2016/2019 e os desafios da entidade são grandes e muitos. Nesta administração, elegemos três pilares: o primeiro é fortalecer a CAF (Coordenação de Autofiscalização), dando condições técnicas para exercer a qualificação e a reavaliação da cachaça.

Em segundo lugar, nossa meta é promover união e aproximação dos associados, buscando agrupar maior número de produtores e fortalecendo o grupo.

Em terceiro e último, modificar o estatuto da AMPAQ e promover uma adequação do mesmo, envolvendo toda a cadeia produtiva do agronegócio, desde o plantio da cana, passando pela produção até a exportação do produto final armazenado ou envelhecido.

A AMPAQ é uma entidade reconhecida que quer se colocar a serviço da transformação e reestruturação da cadeia produtiva da cachaça, incentivando a participar como associados, não só dos produtores, mas também empresas ligadas ao melhoramento e técnicas do plantio da cana, indústrias produtoras de equipamentos ligadas à cana de açúcar, indústrias de alambiques, caldeiras, reservatórios, tanoarias, projetistas da indústria da cachaça, indústrias de garrafas, tampas, lacres, rótulos, embalagens, laboratórios de análises, profissionais do design e publicidade, etc.

Sabemos que temos muitas batalhas a enfrentar, entre elas, é diminuir e simplificar a excessiva carga tributária, que chega a 83% do preço do produto nas prateleiras do supermercado, contribuindo para aumentar a clandestinidade dos produtores de cachaça de alambique, comprometendo a qualidade da cachaça não certificada. Para cada 10 garrafas colocadas na prateleira de um supermercado, mais de 8 garrafas são para pagamento de impostos e tributos. Além disso, somos impedidos de participar do SIMPLES NACIONAL, que minimizaria muito os entraves burocráticos e tiraria muitos produtores da clandestinidade. A produção de cachaça de alambique hoje não pode ser considerada um bom negócio, para aqueles produtores que atendem a todas as exigências dos órgãos fiscalizadores.

Outro ponto a ser combatido é a falsificação, que é frequente e deverá ser feito através de selos e certificações concedidos por órgãos idôneos, competentes e com reciclagens periódicas.

Mais uma barreira a ser quebrada é a do preconceito contra a bebida, principalmente nas classes sociais mais elevadas. Para isso, estamos buscando uma aproximação com o público consumidor, através de projetos que levam para ele informação relevante. Foi assim que surgiu a parceria AMPAQ e aplicativo Cachaciê, uma ferramenta inovadora e valiosa para levar conhecimento e interação para os apreciadores da mais brasileira das bebidas.

Apostamos que os consumidores, através do estímulo e troca proporcionados pelo Cachaciê, vão perceber cada vez mais o valor e encantamento desta sofisticada bebida que é a cachaça,

Artigo assinado por José Otávio de Carvalho Lopes, Presidente da AMPAQ. Produtor rural na área da pecuária e no ramo da agroindústria da cachaça, fabricando a Cachaça Bem me Quer, Santa Romana e Souza Paiol.