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Um português nos reinos das cachaças

Por Cachaciê   •  29 abril de 2019   •  Compartilhar

Os reinos das cachaças e não o reino da cachaça. Esta forma de abordar o assunto traduz o que ainda se pode observar no conjunto dos produtores desta bebida destilada – dificuldade em se ligarem, em se associarem, em se entreajudarem.

 

Num mundo de concorrência desenfreada no campo das bebidas espirituosas, em que vale tudo, torna-se necessário estar alerta e conhecedor do que se passa no mercado mundial destas bebidas.

 

Acompanho o setor da cachaça no Brasil, desde o ano 2000 e constato que houve muito progresso, na qualidade do destilado, na apresentação do envasamento e na própria divulgação do produto, quer em requintadas revistas, quer em TV, rádio, outdoors e mesmo nos meios digitais.

 

Novos produtores têm aparecido no mercado, mas com uma capacidade de produção condicionada à demanda limitada a pequenas quantidades. A exportação ainda é uma miragem. Contudo não falta criatividade e o aproveitamento da qualidade de várias madeiras para o envelhecimento proporciona uma oportunidade única ao Brasil, de apresentar blends de várias madeiras, inovando em nível mundial, fazendo “cócegas” à madeira do carvalho, que domina o envelhecimento.

 

A juventude começa a interessar-se pela cachaça, através das receitas que nos fazem admirar até onde vai o conhecimento do território. Já ouviram falar de uma infusão de jambú em cachaça? Isso mesmo, jambú.

 

No Norte do Brasil certamente se conheça mais, mas colocá-la no mercado com a intenção de exportá-la já é bem diferente. Confesso que ainda não tive oportunidade de provar, mas os jovens devem estar dispostos a sentir a boca dormente uma vez bebida e certamente não serão só os jovens.

 

Mas o que está por detrás destas novidades, blend e infusões originais, é a genuinidade de produtos brasileiros. Num mercado cheios de clandestinidade, falsificações, cheio de bebidas de laboratório, o Brasil tem muito que contribuir para uma clarificação no mercado deste tipo de bebidas.

 

Na recente estadia no Brasil, onde pude divulgar o meu livro sobre a cachaça, escrito por um português para portugueses, pude perceber mais uma vez a necessidade de os produtores se associarem ao pretenderem exportar cachaça. Qualidade, quantidade e continuidade são três palavras que significam três atitudes essenciais para quem quer exportar cachaça de alambique. Ou se tem uma grande capacidade financeira suficiente para implantar novos produtos em outros países ou não se chega senão para sensibilizar clientes, em reduzidos espaços territoriais sobre o que é uma boa cachaça.

 

A cachaça  concorre em nível mundial com outras bebidas destiladas, que servem como ingrediente principal em cocktails. Aqui mais uma vez a genuinidade e a qualidade têm que imperar pela explicação da sua diferença relativamente às suas concorrentes. Cabe ao consumidor escolher a sua preferida perante alternativas, mesmo com preços diferentes. O dizer-se que a juventude bebe qualquer bebida sendo que o que pretende é sentir-se sob o efeito do  álcool , não é argumento para nos contagiarmos na má qualidade do que lhe é proporcionado por outros atores do mercado.

 

 

Sobre o Autor

 

Antônio Amaral Gomes, é um apaixonado por cachaça, e autor do livro “A Cachaça, a paixão do lado de cá”. Lançado no início deste ano em Portugal e no Brasil.

 

Economista, natural de Vila Nova de Gaia, Antônio teve por 15 anos um restaurante de comida mineira em Lisboa, o que proporcionou a ele uma ampliação de seus conhecimentos sobre o destilado brasileiro.