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UMA PROSA SOBRE A CACHAÇA MINEIRA

Por Cachaciê   •  22 maio de 2018   •  Compartilhar

 

Por Marcela Azevedo

Uma bela manhã, tarde ou noite fria do período colonial, advindos lá das bandas do Rio de Janeiro, retornam as tropas que um dia foram até Paraty levar o ouro para o embarque. Mas desta vez não voltaram com as mãos vazias, trouxeram em seus bornais uma bebida de sabor forte e sem cor que era capaz de aquecer durante as paradas do longo percurso, animar as tropas e ainda era usada como moeda de troca e negociação pelo caminho – a aguardente de cana de açúcar!

Uma bebida feita a partir da fermentação de cana-de-açúcar e que de doce nada tinha. Uma bebida que chegou de mansinho e assim foi ficando e se incorporou ao processo histórico da capitania mineira atribuindo aspectos relacionados a conflitos, de ordens e descaminhos ao mesmo tempo em que eram vistas como um importante controle social e tributário.

Uma bebida cercada de lendas como a do melado esquecido no fogo e depois escondido do feitor, que fermentou e, após evaporar, condensou-se no teto do engenho e gotejou, dando origem à denominação “pinga”.

E a pior delas que afirma ser o termo “aguardente” advinda de uma suposta ardência do líquido em contato com as feridas nas costas do escravo.

Tudo isso aconteceu com a queda da economia do açúcar e o início do ciclo do ouro.

As aguardentes brancas eram colocadas em barris de madeira para serem transportadas até a Capitania das Minas.

No tempo da viagem, a cachaça, pelo contato com a madeira, acabava amarelando e tomando aromas e sabores próprios. Um sabor mais “manso”, adocicado e suave.

Com a alta expansão urbana e a necessidade de enriquecer com o ouro, nas regiões de extração estavam também os pequenos alambiques que abasteciam a população. Se repararmos bem, a linha de alambiques das terras mineiras seguem a risco as estradas coloniais, a famosa Estrada Real. Do litoral ao sertão.

Atravessando e cortando todas as terras e regiões. As idas e vindas do litoral para o interior, a cachaça mineira começa a acompanhar os viajantes e assim, sempre armazenada nos toneis, o novo sabor mineiro da controversa aguardente de cana de açúcar começa a ganhar o mundo.

E com esse pequeno “causo”, nada acadêmico, encerro por aqui o início de muitas prosas regadas com nossa deliciosa cachaça mineira, que nos faz viajar por rês séculos de conquistas.

 

Sobre a Autora – Marcela Azevedo

Marcela Azevedo, Historiadora e Mestre em Metodologia da Pesquisa pela UFMG. Sócia Proprietária do Experimente Minas e idealizadora da Rota da Cachaça. Especialista em Roteirização em Turismo Gastronômico.